Relva Velha tem o privilégio de conhecer exatamente a data da sua fundação, juntamente com a irmã gémea, Monte Frio, fevereiro de 1345:
Reinava El-Rei D. Afonso IV, o Bravo, quando o Bispo de Coimbra, decidiu conceder Carta de Poboação a Liaz Lourenço, João Gonçalves, Estevão Domingues e Vasco Domingues, terras junto à Mata da Margaraça, às quais atribuíram os nomes de Relva Velha e Monte Frio.
Nessa carta de poboação que se encontra na Torre do Tombo em Lisboa, eram acordados os direitos e os deveres dos poboadores, sendo que as primeiras habitações, com madeiras provenientes da Mata da Margaraça, que pertencia também ao Bispo de Coimbra, deveriam estar concluídas na altura do São Miguel, ou seja, finais de setembro do mesmo ano.
Pouco se sabe da sua evolução ao longo de quase seis séculos. Depreende-se que muito trabalho terá havido no roteamento das encostas para a construção de centenas de socalcos (as quelhadas) com vista a tirar da terra uma paupérrima agricultura, pois que a terra é pobre e a água sempre terá sido escassa. A criação de gado, cabras e ovelhas seria outra parca fonte de rendimento.
Até ao ano de 1930 existiu no centro da aldeia a capela dedicada à Srª das Neves com apenas uma imagem de “roquete”, só cabeça e braços, sendo a estrutura de madeira, revestida de tecido. Em 1931, tendo por coordenador António Gonçalves Matias, erigiram no lado norte da aldeia a capela dedicada à Nª Sr.ª dos Milagres, vá-se lá saber porquê, talvez porque anteviam que no futuro necessitariam de grandes milagres, para levarem por diante o progresso de que a aldeia necessitava, a exemplo do que estava a acontecer nas aldeias vizinhas.
Assim, ainda no final da década de quarenta, é criada uma pré - Comissão de Melhoramentos que vem a ser a semente embrionária da atual C.M.R.V.
No início de 1952, em 27 de janeiro é fundada por um grupo alargado de relvavelhenses e liderada por César da Silva Nunes, acompanhado por António Gonçalves Matias, António Gonçalves Matias Júnior, António Filipe, José Filipe, Elísio Nunes Filipe, António Augusto, José Augusto da Silva, Germano da Silva Nunes, César Gonçalves, Abílio Gonçalves e mais alguns relvavelhenses e amigos, comissão esta que inicia um vasto leque de melhoramentos.
Logo na década de cinquenta é alargada a rua principal, com a designação de Rua António Gonçalves Matias, desde 1966. Na tentativa de melhorar o abastecimento de água à aldeia é construído no fundo da mesma, um reservatório com torneira e uma bica de água corrente, bem como um lavadouro, pois até aí tinham que recorrer ao chamado “Chafurdo” na ribeira.
A colocação de um posto público de telefone que funcionava em casa de António Gonçalves Matias, assim como a caixa do correio, cujo carteiro passava diariamente.
O melhoramento da estrada carreteira que ligava à sede de freguesia Benfeita à qual a Relva Velha pertenceu até 1962, ano em que foi criada a freguesia de Moura da Serra, onde foi incluída. Ainda no início dos anos 50, foi construída a torre sineira, no centro da aldeia, obra de grande envergadura, em xisto e revestida com reboco e pintada de um branco imaculado “assim era mais bonita”, com mais de vinte metros de altura, com o sino do velho campanário ali existente, sino este que já contava com a bonita idade de quase 100 anos. É também colocado na torre um relógio de fabrico artesanal concebido na aldeia de Cepos.
Nos anos 60 é dado o grande salto para o progresso, com a construção da estrada do Formarigo à aldeia, onde foram impulsionadores Adelino Filipe e António Matias, com a colaboração da Câmara Municipal de Arganil. Também o abastecimento de água ao domicílio e chafarizes, bem como o lavadouro público.
No princípio dos anos 70, surge a eletricidade, benefício que nos colocava a par do mundo civilizado. Neste benefício houve também a comparticipação do Estado, graças ao esforço empreendido junto das autoridades, pelos membros diretivos. Também neste período a estrada de acesso à aldeia é melhorada e chega até ao centro da mesma.
É adquirida uma moradia com logradouros, onde se instala a sede e o Centro Recreativo.
Anos 80 é aberta uma estrada entre a aldeia e a estrada que liga o Monte Frio aos Pardieiros, na zona da Malhada, com apoio da C.M. Arganil.
É aberta outra estrada entre a Relva Velha e o Enxudro, pelo Estado, em que a Comissão de Melhoramentos também participou.
Em 95 é concluído o Largo da Comissão de Melhoramentos com o fim de celebrarmos as grandes comemorações do 650º aniversário da aldeia.
Desde essa data até ao presente, somas avultadas têm sido investidas em: renovação do Centro Recreativo, pavimentação de algumas ruas da aldeia e Largo da C. Melhoramentos, também, o maquinismo do relógio de torre foi substituído por um eletrónico, embora os sons das badaladas continuem a ser reproduzidas pelo centenário sino. A Comissão de Melhoramentos da Relva Velha até 2011 teve apenas dois presidentes de Direção: César da Silva Nunes e Sérgio Gonçalves Tomaz. Nos dez anos seguintes mais três: Manuel Filipe, Miguel Alves e Mª Cristina Nunes Formiga.
Motivos de interesse em Relva Velha:
A Capela de Nossa Senhora dos Milagres, a Torre Sineira, a Antiga Fonte, com o Lavadouro, ao lado uma “poça” onde se represava a água para irrigar os terrenos de cultivo adjacentes. Poça com mina escavada na rocha onde se captava a água, esta ao “Cabecinho”, novo lavadouro público. O Alambique comunitário, o Forno comunitário e ainda várias casas, palheiras e currais em xisto algumas delas com centenas de anos.
Também uma visita à “Bica da Costa” com mesa para uma boa merenda e admirar e fazer umas fotos da aldeia. Por fim, descansar o corpo e o olhar, disfrutando de uma vista panorâmica de cortar a respiração, a partir do Largo da Comissão de Melhoramentos, que se estende até à Serra do Caramulo.
Tendo à esquerda a soberba Mata da Margaraça, que embora não constando como território da nossa freguesia, ela é bem nossa. É o nosso grande pulmão e bem oxigenado. Depois a sua beleza... Para os mais corajosos, há vários trilhos a disfrutar, de vários graus de dificuldade.
Nas últimas décadas, a C.M. Arganil e a União de Freguesias de Cerdeira e Moura da Serra, têm-se empenhado na manutenção das infraestruturas, usando a sua boa vontade e os escassos recursos que magramente lhes chegam, o que sinceramente sublinhamos e agradecemos. Também os nossos agradecimentos ao jornal “A Comarca de Arganil” pela disponibilidade sempre manifestada no propósito de servir o regionalismo.
E porque no início referimos, sermos uns privilegiados, divulgo com a devida vénia o que o Sr. Carlos Dinis, que não tenho o prazer de conhecer, publicou no site da C.M.R.V. em outubro de 2022, que a fadista Amália Rodrigues era descendente, pelo lado paterno, de João Fernandes e de Cecília Dias, naturais de Relva Velha.
Os sétimos avós de A. Rodrigues, o João Fernandes e a Cecília Dias, foram pais de João Fernandes, nascido na Relva Velha.
Os sextos avós, J. Fernandes nascido na Relva Velha, casou no dia 3 de outubro de 1709, em Escalos de Cima-Castelo Branco com Maria Martins Domingues, etc., por fim chegamos aos pais de Amália Rodrigues, Albertino de Jesus Rodrigues nascido a 8 de junho de 1888 em São Miguel da Sé - Castelo Branco, casou com Lucinda da Piedade Rebordão, natural do Fundão, onde nasceu no dia 2 de Maio de 1892 e foram pais de Amália Rodrigues que era uma das mais velhas dos irmãos e foi registada a 23 de julho de 1920, como tendo nascido na Rua Martim Vaz, nº 86, 4º andar em Pena, Lisboa.
Por: Sérgio Gonçalves Tomaz
